Sustentabilidade

A Sustentabilidade Na Prática

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Neste ultimo sábado, dia 29 de março, aconteceu o evento “A Hora do Planeta”, iniciativa da rede WWF para um movimento global em torno da sustentabilidade. Pessoas, empresas, cidades, governos etc. foram convidados a refletir sobre suas ações em prol da sustentabilidade e mesmo apresentar suas soluções. Espero que iniciativas como esta se multipliquem e gerem resultados cada vez mais mensuráveis, afinal, lutar pela sustentabilidade do planeta é dever de todos.

Refletindo sobre as ações que estiveram ao meu alcance, como profissional voltada para a implantação de projetos sustentáveis na Amazônia, tenho constatado que é necessário muito mais que um bom projeto, que uma correta identificação das suas áreas de gerenciamento, que a boa vontade de implementá-lo. Existe todo um cabedal intangível que se inicia a partir do momento em que você chega ao lugar onde ele vai ser implantado. Os stakeholders começam a ter nome, ter vida, ter voz, e os conceitos de melhorias tão bem justificados no projeto entram em cheque. O seu projeto vai gerar impacto – toda ação humana gera impacto. Como conciliar o(s) impacto (s) com essa realidade que você passa a conhecer melhor? Como garantir que o desenvolvimento vai se traduzir em riqueza social e ambiental? Como garantir que os bons resultados vão se continuar no futuro, mesmo depois que você, o projeto, ou mesmo as pessoas que atualmente estão envolvidas nele aí não mais estejam? Não só em grandes projetos (por ex. medidas mitigadoras para construção de hidrelétricas), projetos pequenos também têm seu grau de impacto, mesmo que seja, por exemplo, o simples fomento de uma produção artesanal. O aumento da renda certamente vai gerar consumo, vai gerar competição, alterar relações sociais já estabelecidas. Vai gerar novos patamares e aspirações. São realidades distintas das nossas, necessidades distintas das nossas, o conceito de sucesso do projeto deve levar em isso em consideração.

A mudança de processos locais normalmente gera resistência. Como conciliar a inovação com os saberes locais sem criar conflitos? Como conduzir a mobilização social a um termo onde todos saiam ganhando? Os projetos precisam ir se ajustando e você precisa ter flexibilidade e sabedoria nessa formatação. Precisa ter ao mesmo tempo a visão da empresa que você representa e a empatia com as necessidades das pessoas, que se abrem a partir da nova realidade – interesses que muitas vezes caminham em direções opostas. E você precisará fazer essa interface com toda a isenção.

Coisas que antes eram apenas menções ligeiras nas apresentações e relatórios agora assumem dimensões mais amplas. A logística emperra os prazos e aumenta os custos, apesar do seu planejamento; as distâncias físicas parecem maiores; o clima, a cheia, a seca, tudo interfere mais que o plano de riscos previa; a dificuldade de mão de obra é sempre maior que se imaginava. O cansaço e o isolamento chegam a ser palpáveis. É preciso paixão pra não se deixar abater.

Correções de rumo são custosas, mas quase sempre necessárias – principalmente em projetos ditos demonstrativos, onde se espera que uma ação desenvolvida com sucesso em determinada área seja passível do mesmo resultado em outra. É preciso considerar profundamente os interesses locais e o ambiente – por exemplo, na mesma calha do rio Amazonas há regiões distintas, como os igapós da zona de Parintins, as áreas de várzea de Santarém e os campos alagados do Marajó. Existem graus diferentes de aceitação da presença forânea, especialmente em áreas onde etnias e crenças ancestrais predominam, como áreas próximas a reservas indígenas e pobladores de países limítrofes. Como fazer que essas comunidades reconheçam seus potenciais e capacidades e impulsionem suas ações sem perder sua essência? Como reduzir os impactos sociais e ambientais das nossas intervenções, mesmo que bem intencionadas? Como fazer com que os projetos que implantamos contribuam para a melhoria efetiva e duradoura da qualidade de vida dessas pessoas e regiões? São essas e tantas outras as questões que fazem parte do intangível que acompanha a implantação dos projetos em áreas em desenvolvimento. É preciso estar dentro do projeto para entender todo seu funcionamento, necessidades e objetivos e é preciso também estar fora para abrir os horizontes e entender o entorno. É preciso dialogar profundamente com as representações locais, orquestrar a interação participativa que vai subsidiar as nossas decisões, é preciso entender o espaço e a historia, é preciso respeito. E, não menos importante, é preciso compromisso, e muita, muita dedicação.