Logística e Infraestrutura

Um Mundo Sem Carros

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Por Anne Melander (AGÊNCIA EFE)

Atualmente, mais de 650 milhões de carros circulam pelo planeta, mas o fim do petróleo pode acabar com a era do automóvel

O que acontecerá quando o petróleo acabar, a mudança climática levar as pessoas a migrarem e a urbanização conduzir a uma escassez de energia e recursos a ponto de a sociedade ter que achar um substituto para os automóveis atuais ?

Não se trata do roteiro de um filme hollywoodiano, mas da realidade que podem enfrentar as futuras gerações, segundo afirmam Kingsley Dennis e John Urry, da Universidade de Lancaster, autores do livro “After the Car” (Após os carros, numa tradução livre).

A obra é uma reflexão que inclui três prováveis cenários sobre como as pessoas viverão e se locomoverão quando não puderem mais contar com os meios de transporte desenvolvidos no século XX. No livro, os autores sustentam que o sistema automobilístico atual está destinado a ser reorganizado antes do fim deste século. Segundo os dois especialistas, são necessárias diversas mudanças nas tecnologias, na política, na economia e nas sociedades do mundo todo para poder tornar realidade este novo sistema.

Vida no futuro: desagradável, solitária e curta

Dennis e Urry afirmam que combustíveis alternativos (hidrogênio e biocombustíveis), novos materiais, automóveis inteligentes e novas políticas de transporte podem ser os pilares de um novo sistema. No entanto, restam alguns grandes obstáculos para que tal mudança ocorra.

Os autores sustentam que a vida no futuro pode se tornar até “desagradável, solitária e curta” quando as consequências da mudança climática começarem a se manifestar, o petróleo acabar e o crescimento demográfico mundial chegar a seu limite. É, portanto, “absolutamente necessário” livrar-se do atual sistema automobilístico com suas altas emissões de gás carbônico para limitar os efeitos desastrosos da mudança climática e da crise energética.

O mais preocupante é que as opções que restam para o futuro da humanidade são limitadas pela herança pesada do século XX, segundo os pesquisadores.

Três futuros cenários

No livro, Urry e Dennis descrevem três cenários hipotéticos para 2050, que têm sua origem em um programa de prospectiva elaborado pelo departamento de Comércio e Indústria britânico de 2006 chamado “Intelligent Infrastructure Futures The Scenarios – Towards 2055”. Os autores consideram que os deslocamentos no futuro serão menores e que haverá uma drástica queda na qualidade de vida das pessoas.

No primeiro cenário, as pessoas já vivem em comunidades auto-suficientes e provavelmente semi-isoladas. Os deslocamentos de longa distância serão pouco comuns pela escassez de petróleo e recursos, e o automóvel se tornará um luxo, sendo, portanto, parcialmente substituído por outros meios de transporte para deslocamentos menores.

Se o segundo cenário tornar-se realidade, haverá uma brusca queda na qualidade de vida das pessoas, segundo os dois especialistas. Instalados em um “caudilhismo regional”, o único lugar seguro será nas fortalezas construídas nas nações ricas para distanciar-se das pobres, e as viagens de longa distância serão extremamente perigosas, como consequência das contínuas lutas entre regiões para o controle da água, do gás natural e do petróleo.

Os carros serão versões oxidadas de décadas anteriores

Já se a realidade for o terceiro cenário, dominado por “redes digitais de controle”, haverá um novo sistema em pleno funcionamento com uma mistura de veículos híbridos e meios de transporte de massas, baseados em tecnologias muito avançadas, que registrarão cada pessoa e seus movimentos.

Urry e Dennis ressaltaram que a melhor situação seria a terceira, mas que, no entanto, ela não é a mais provável. Seja qual for o futuro, os especialistas advertem que o século XX deixou enormes dilemas para o XXI. Esperar que um sistema seja alterado da noite para o dia parece ser, no entanto, pouco provável. Ainda assim, parece que teremos grandes desafios no futuro.