Mercado

Serviços e Prosperidade

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Por Jorge Arbache
Está se popularizando no Brasil a percepção de que o setor de serviços é relevante para a economia, o que é positivo. Afinal, o setor responde por nada menos que 70% do PIB, 74% da força de trabalho e por 83 de cada 100 novos postos de trabalho formal. Esse gigantismo é, no entanto, uma anomalia.

De fato, o setor de serviços expandiu-se exagerada e prematuramente no Brasil. Nos países industrializados, o setor atingiu 70% do PIB quando eles tinham renda per capita no mínimo duas vezes maior do que a que temos hoje. Nos países emergentes, o setor é menor que o nosso – na Coreia do Sul, por exemplo, que já tem renda per capita de país industrializado, só recentemente o setor de serviços atingiu 60% do PIB.

O que teria acontecido conosco? A indústria, que é tradicionalmente a principal fonte de demanda por serviços intermediários e a principal motivação por detrás do desenvolvimento de novas soluções e investimentos em serviços mais sofisticados, entrou em regime de encolhimento a partir de meados da década de 1980. Como consequência, o setor de serviços seguiu crescendo, mas com foco desproporcionalmente elevado nos serviços de consumo final.

O Brasil foca atenções na agricultura e em bens industriais finais, que são agenda de comércio do século XX

Assim, enquanto o quinhão dos serviços destinados à indústria e outras atividades econômicas é relativamente baixo no Brasil, o quinhão destinado ao consumo final é relativamente elevado. Não por acaso, a participação dos serviços na cesta de consumo da família brasileira já passa dos 65% — em outros países emergentes, aquela participação ronda a casa dos 45% a 55%.

O problema do elevado foco do setor de serviços no consumo final é que os serviços e soluções destinados às pessoas são tecnologicamente inferiores àqueles destinados às empresas. Em razão disso, o setor vem se desenvolvendo em torno de produtos de baixo valor adicionado e de baixa qualidade e são fornecidos, majoritariamente, por empresas pequenas e pouco produtivas – a típica empresa formal de serviços tem apenas 5,3 pessoas ocupadas e produtividade do trabalho de meros R$ 4.511 por mês. Não nos parece exagero afirmar que o setor de serviços estaria despreparado para atender aos desafios do crescimento do país.

Mas as limitações do setor de serviços ficam ainda mais evidentes quando examinamos pelo menos quatro outros aspectos importantes. O primeiro deles está associado aos efeitos da pouca competitividade dos serviços nas empresas que os consomem como insumos de produção. A relação entre serviços e valor adicionado pela indústria já beira os 65% no Brasil, padrão similar ao observado nas indústrias de países ricos. A diferença é que lá a relação é elevada em razão da natureza dos bens produzidos, que incorporam inovações tecnológicas, marcas, design e outros serviços de agregação de valor e diferenciação do produto. Já aqui, o peso dos serviços resulta, sobretudo, dos altos preços e da qualidade baixa, bem como da modesta densidade industrial.

Muito embora o setor de commodities também seja grande consumidor de serviços intermediários, a sua dependência é significativamente menor que a da indústria, o que ajuda a explicar a maior atratividade dos investimentos naquele setor e a sua maior competitividade internacional.

Um segundo aspecto está associado às contas externas. A baixa competitividade e o foco no mercado interno já têm levado o setor de serviços a causar impactos importantes também no setor externo da economia. O déficit anual da balança de serviços não apenas já é muito elevado, na casa dos U$ 50 bilhões, mas segue com tendência de forte crescimento. Ao que tudo indica, a conta de serviços se tornará um dos maiores constrangimentos ao crescimento econômico sustentado.

Um terceiro aspecto está associado à inserção do país na economia global. As relações econômicas internacionais estão sendo comandadas cada vez mais pelos serviços, que já respondem por 50% de tudo que se comercializa. Estima-se que os serviços responderão por pelo menos 70% do comércio global até 2025. Já os investimentos estrangeiros diretos dirigem-se cada vez mais para negócios em serviços – hoje, os serviços já são o destino de 65% do fluxo total daqueles investimentos.

Além disto, ao contrário do que nos acostumamos a acreditar, os serviços estão se tornando cada vez mais comercializáveis – já é comum consumirmos telecomunicações, seguros, design, projetos, e-commerce, entretenimento e outros serviços vindos de fora. Espera-se que porção crescente dos serviços venha a ser provida ao longo dos próximos anos a partir dos países industrializados, com importantes impactos na criação de emprego e renda naqueles países, o que ajuda a explicar a voracidade com que americanos e europeus têm se agarrado aos serviços nas negociações de comércio, investimentos e acordos preferenciais. O problema é que estamos alijados desse debate pois temos focado as nossas atenções na agricultura e em bens industriais finais, que são parte da agenda de comércio do século XX.

No século XXI, serviços tecnologicamente modernos, integrados à economia internacional e, sobretudo, associados às outras atividades econômicas serão a principal fonte de criação de valor adicionado e de competitividade e um dos principais responsáveis pelas diferenças de trajetórias de crescimento entre países. Por isto, é preciso, em primeiro lugar, trazer os serviços para o centro da nossa agenda de crescimento econômico e, em segundo lugar, integrá-los às políticas produtivas, tecnológicas, educacionais, comerciais e de investimentos, sob pena de condenarmos a prosperidade do país a avançar lentamente.

Jorge Arbache é professor de economia da UnB. jarbache@gmail.com

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