Empreendedorismo e Inovação Mercado

Made in the USA

Por Jorge Arbache

À primeira vista, a indústria manufatureira americana lembra um velho moribundo. Afinal, a sua contribuição para o PIB e para o emprego despencou ao longo dos anos e hoje se encontra em níveis modestos, da ordem de 12,4% e 8,8%, respectivamente. Mas como explicar que um suposto velho moribundo possa responder por 70% dos investimentos privados em P&D, empregar 35% dos engenheiros e liderar o processo de recuperação econômica da maior economia do planeta?

Mágica? Não. A confusão se deve à inadequação daquelas variáveis – contribuições para o PIB e para emprego – para identificar e medir a relevância e abrangência da moderna indústria do século XXI, da qual a indústria americana é o seu maior expoente. A indústria vem passando por profundas transformações em razão, de um lado, da mudança do padrão e das preferências de consumo associadas a fatores como aumento da renda, transformação demográfica, urbanização e conectividade, e, de outro lado, das novas tecnologias de produção e da integração dos mercados globais.

De fato, temos consumido, e cada vez mais, bens com crescente conteúdo embarcado de serviços e bens que são comercializados em conjunto com serviços – dois exemplos são o iPad, em que softwares, licenças e marcas correspondem a 93% do valor final, e as turbinas de avião, que são vendidas em pacotes nos quais serviços técnicos, de manutenção e treinamento, e serviços financeiros e seguros equivalem a grande parte do valor desembolsado pelo cliente.

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A popularização das novas tecnologias de produção está trazendo de volta fábricas antes estabelecidas na Ásia
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A integração dos mercados tem criado oportunidades únicas para o desenvolvimento industrial, tal como nos revelam a dinâmica e a rápida evolução das cadeias globais de valor. Já as novas tecnologias de produção, como robótica, impressão 3D e “lean manufacturing”, têm modificado a noção da escala de produção para a competitividade industrial.

Aquelas transformações têm estimulado o desenvolvimento de uma relação crescentemente simbiótica e sinergética entre a indústria e os serviços para criar valor, empregos e riquezas especialmente nos Estados Unidos. Gestão e coordenação de cadeias de valor, inovações, P&D, marcas, marketing e pós-vendas estão entre os serviços que estão acrescentando valor ao produto industrial e contribuindo para o desenvolvimento de gigantescas plataformas de produção, muitas delas em nível global, mas que complementam as operações domésticas. Estimativas sugerem que cada 10% de aumento das vendas de empresas transnacionais industriais americanas em terceiros mercados está associado ao aumento de 8,2% dos dispêndios em P&D.

A popularização das novas tecnologias de produção, a elevada produtividade sistêmica associada à disponibilidade de infraestrutura, trabalhadores treinados, opções de fornecedores competitivos de insumos e serviços e instituições que favorecem os negócios, a proximidade dos laboratórios de P&D e o encarecimento dos custos de produção na China têm estimulado investimentos em plantas industriais nos Estados Unidos e até mesmo o retorno de fábricas antes estabelecidas na Ásia.

Tudo isso sugere que, primeiro, está se tornando mais difícil identificar a linha que demarca bens de serviços e, segundo, a indústria está se tornando mais influente e determinante para os destinos da economia americana. Embora o valor agregado da indústria seja de apenas 12,4% do PIB, o valor bruto da produção industrial equivale a nada menos que 38%!

O que o maior ativismo da indústria americana tem a ver com o Brasil? Tudo. E por pelo menos dois aspectos. A tendência de padronização das tecnologias de produção e a crescente influência das cadeias globais de valor na localização industrial reduzem os graus de liberdade de políticas públicas e privadas de estímulo à indústria no Brasil.

Outro aspecto está associado ao comércio. Em 2005, o saldo comercial bilateral de produtos manufaturados era de US$ 5 bilhões em favor do Brasil. Mas, desde então, o saldo vem se deteriorando e, em 2013, passou para um déficit de US$ 20 bilhões. A tendência é que as nossas importações de “made in the USA” continuem aumentando.

Parte da deterioração do saldo comercial pode ser explicada pela valorização cambial. Mas o problema parece ser estrutural: a densidade industrial e a produtividade do trabalhador industrial americano são, respectivamente, onze e cinco vezes maiores que as do Brasil. O quadro se torna ainda mais alarmante quando comparamos nossos custos e produtividade do trabalho com os do México, país do Nafta, e nosso mais forte competidor regional nas áreas comercial e de atração de investimentos estrangeiros.

As perspectivas que se descortinam para a indústria sugerem que políticas industriais convencionais serão ineficazes para redinamizar a indústria brasileira e inseri-la pela porta da frente na economia mundial. Serão preciso, isto sim, políticas ambiciosas que elevem a densidade industrial num ambiente internacional muito mais complexo em que o conhecimento e a capacidade de agregar valor serão os motores do crescimento econômico.

Mas, diferentemente de vários países emergentes, o Brasil ainda goza de condições que lhe garantem poder ambicionar mais para a sua indústria. Sua localização geográfica, o tamanho dos mercados doméstico e regional, as enormes oportunidades de industrialização das vantagens comparativas, a base industrial instalada e a diversificação da economia são recursos valiosos que contam a nosso favor para orientar as políticas industriais que nos conduzirão ao futuro.

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