Coaching

Liderança: Uma Realidade Que Não Vem dos Contos de Fadas e Sim, do Campo de Batalha Que é o Mercado!

predio conto de fadas

Por Profa. Dra. Ana Paula Arbache

Duas situações interessantes pude refletir em recente viagem a Chicago. Por conta de uma pesquisa na área de liderança e gestão de carreira, conheci o verão de uma cidade que, até então, vivenciei sob o vento mais gelado. Chicago é uma cidade linda e um dos seus vizinhos mais ilustres, o lago Michigan recebe os seus visitantes com a alegria e o encantamento dos dias ensolarados e das noites de brisa fresca.

Mas o que isto tem a ver com a minha pesquisa? Tenho tido um olhar bastante critico e investigativo para o cenário de formação de jovens líderes e para a gestão de carreira dos mesmos. Como coach e conselheira de carreira, acompanho diferentes casos e busco compreender as fases das vidas dos sujeitos, o ciclo de vida de suas carreiras e as factíveis possibilidades para o futuro destes profissionais.

Digo factíveis pois, por vezes, há aqueles que querem chegar ao paraíso, sem com isto, trilhar algum caminho. Esta ambição de alguns jovens, tem sido recorrente em seus depoimentos. Nada contra a vontade de vencer, no entanto esquecer do caminho, pode ser uma grande cilada!

Voltando a Chicago, o olhar de uma pesquisadora esta sempre atendo. Quando eu cursava meu mestrado na UFRJ conheci um modelo de pesquisa muito interessante, li textos de autores que traziam a chamada Estória de Vida, para dentro do universo da pesquisa. A estória de vida de diferentes sujeitos e seus universos, trazem à tona fatos que, recorrentes, acabam por demonstrar uma realidade, ou o que chamamos, uma variável emergente!

Meu olhar captou duas estórias de vida, que passo agora a relatar.

A primeira delas aconteceu em um dia muito quente, aproveitando o final de semana, passei o dia em uma das praias do Lago Michigan, como não estava preparada para me proteger do sol, eu e meu marido Fernando,resolvemos alugar uma barraca de praia e cadeiras, para que pudéssemos aproveitar o dia. Assim que pisamos na areia um jovem sorridente nos parou e ofereceu um guarda sol e cadeiras, com muita gentileza nos acomodou  próximo ao Lago. Nós fizemos o pagamento do serviço e, sem perder a oportunidade, começamos  conversar com o garoto, de cerca de 20 anos. Muito tranquilo e gentil, nos contou que estava fazendo o trabalho de verão, pois estava de férias do curso de tecnologia da informação que cursava na Universidade de Chicago (a nona no ranking das melhores universidade no mundo: http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2013/10/1350715-usp-despenca-no-principal-ranking-universitario-da-atualidade.shtml.acesso em 03/09/2013).

Após a conversa, passamos a observar o comportamento dele na prestação de serviço. A nossa volta haviam jovens, pessoas mais velhas, casais com crianças e ao nosso lado um piloto da forca aérea. A todos ele atendeu com presteza e com simpatia, exerceu a tolerância, o respeito aos mais velhos e dialogou, com muita atenção, com o piloto ao nosso lado – sempre desenvolvendo uma noção de hierarquia e respeito – pois ali, naquele momento, o aprendizado estava em um comportamento que um líder deve exercer, pois, mesmo com todo conhecimento e título adquirido, um líder deve respeitar seus interlocutores, promover uma comunicação clara e efetiva, entregar com qualidade e acima tudo, enxergar que todos, independente do cargo que ocupam, devem estabelecer empática em seus relacionamentos. A arrogância e a soberba passaram longe do garoto, mesmo fazendo, um dos cursos mais requisitados da universidade.

A segunda estória é de uma garota, também entre seus 24 a 28 anos, que nos levou para uma visita guiada a um submarino de guerra, no Museu da Indústria e da Ciência na cidade. O Museu é uma estória a parte, além do acervo histórico, o museu traz setores que remetem a pesquisas recentes e à constante inovação. Para quem visita a cidade, vale a pena passar por lá. O que mais chamou a atenção foi o modo como as novas gerações estão, cada vez mais, estabelecendo contato com as obras expostas. O Museu procura gerar o máximo de interatividade possível entre as obras e os visitantes e, quem mais se apropria deste convite, são as crianças e jovens.

Com muito intimidade e sem medo de interagir, este público, quando permitido, entra nas obras expostas, manuseia os robôs, cria novas imagens, joga com simuladores, movimenta as águas do mar e gera ciclones simulados, escolhem as imagens que farão parte do experimento, testam os experimentos, enfim, passam a fazer parte da própria exposição.

Ao entramos no “sarcófago”, um espaço imenso construído para alojar o U- 505 – um submarino alemão capturado pelos americanos na ocasião da segunda guerra mundial, nós deparamos com duas gerações de líderes, que têm o submarino como foco das atenção. O espaço conta com vários expositores com peças e objetivos utilizados pela navegação. Para dar informações e acolher os turistas, há oficiais da marinha americana, já aposentados, que trabalham voluntariamente para passarem o legado que seus pares vêm deixando para o país. Adultos e crianças param para escutarem a comunicação desses voluntários, que, em meio a casos, acabam trazendo á tona noções de tradição, identidade, comprometimento, respeito e responsabilidade – valores que formam a identidade dos sujeitos e sustentam a conduta de lideranças. Mas, lado a lado com os lideres sêniores, estava a equipe que demonstrava o submarino em seu interior. A nossa guia, era uma jovem muito bem educada, simpática, que, ao saber que éramos brasileiros, começou a conversar a respeito do Brasil. A jovem mostrou que conhecia o contexto e, assim que o relógio marcou o horário do tour, abriu o caminho, entrou no submarino e chamou a todos para acompanharem as explicações históricas que envolvia aquele ícone de orgulho americano. Por quase meia hora a jovem descreveu, com muito orgulho, os feitos dos marinheiros que capturaram o submarino alemão e explicava como eles viviam em um ambiente hostil do ponto de vista físico, uma vez que o espaço interno do submarino era bastante restrito. A jovem estava terminando os seus estudos em um curso de graduação em História e, para ela, o Museu é um lugar privilegiado para se trabalhar. Junto os com os voluntários, a equipe de jovens fazem do espaço dedicado ao submarino, uma viagem no tempo! Todos, estão empenhados em resgatar um período de heroísmo dos americanos e são responsáveis por criar nas gerações que visitam aquele ambiente, uma identidade de nação forte, um cidadão que, frente as adversidades e desafios, foca em suas conquistas e colhe os bons frutos. O que isto tem a ver com liderança? Trabalho em equipe, conduta profissional, relacionamento interpessoal, empatia, foco no cliente e no resultado, conhecimento abrangente do cenário.

Nas duas estórias há uma similitude muito interessante. Os dois jovens observados, exercitam a construção de suas competências de lideranças em trabalhos temporários e fazem com que este tempo possa ser produtivo, não só financeiramente. Ambos agregam com esta experiência, uma visão antecipada de mercado e de dinâmica interpessoal, que, somente é possível, quando realmente pode vivenciar situações, nas quais o sujeito está agindo ativamente. O que estes jovens fazem é um laboratório que possibilita, o desenho de uma rota de carreira mais consolidada. O dia-a-dia entregando cadeiras de praia, ou sendo guia em um Museu, viabiliza uma visão concreta de cenário, condutas e formas de comunicação que servirão de repertório para situações futuras. O ganho dessas experiências, para a formação de jovens líderes é essencial.

O que temos de tão interessante para comparar. Nossos jovens não têm o hábito de fazer este exercício, em pouco tempo de trabalho em uma empresa, já buscam alcançar cargos hierarquicamente superiores, esquecendo que outros profissionais estão “na fila”. Muitos deles, não levam em consideração os processos internos, ou mesmo o conselho de suas lideranças e, quando não conseguem seus objetivos, se dizem frustrados, não reconhecidos e logo buscam uma recolocação. A visão distorcida da realidade, faz com que muitos deles não enxerguem o custo de oportunidade, quando deixam bons empregos por julgarem que estão “perdendo tempo”! Talvez, o que está lacunar é a carência de uma estrutura pessoal, que possa suportar uma realidade que não vem dos contos de fadas e sim, do campo de batalha que é o mercado!