Mercado

Indústria ou Serviços?

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Jorge Arbache[1]

O Brasil experimenta uma das mais espetaculares transformações estruturais das últimas décadas. Após ter alcançado o pico de participação de 34,5% do PIB em 1982, a indústria manufatureira iniciou trajetória de contração e hoje representa menos de 13% da economia, padrão inferior ao dos países da OCDE. De outro lado, o setor de serviços passou, no mesmo período, de 45,4% de participação no PIB para 69,5%, padrão também de OCDE.

Aquela rápida mudança levou a uma espécie de Fla x Flu por parte dos analistas. De um lado estão os que concluíram que o Brasil estaria experimentando desindustrialização e que seria preciso estimular e proteger mais o setor. De outro lado estão aqueles que defendem que a contração da indústria e a expansão dos serviços seria parte da evolução natural das economias modernas e refletiria as condições das vantagens comparativas.

Quem está certo? Evidências empíricas sugerem que nenhum dos dois lados. Se há algo que abundou à nossa indústria foram estímulos, subsídios, crédito, proteção cambial e tarifária e muita reserva de mercado. Mas bastou que a economia começasse a se abrir nos anos 1990 para que a indústria passasse a enfrentar dificuldades e revelasse a sua baixa competitividade e dependência da proteção pública. A valorização cambial observada em vários anos das últimas décadas atrapalharia, mas não determinaria os destinos da indústria.

Já o crescimento dos serviços em detrimento da indústria tampouco pode, necessariamente, ser visto como sinal de purga e de modernização da economia. Afinal, a produtividade agregada caiu com o crescimento daquele setor – a produtividade relativa dos serviços é muito baixa e cresce pouco em razão do setor ser composto, majoritariamente, por pequenas empresas que empregam pouca tecnologia e agregam pouco valor.

Seria o Fla x Flu um falso dilema? Sim, porque a indústria e o setor de serviços são, cada vez mais, faces da mesma moeda. De fato, a mudança do padrão de consumo, a globalização e as novas tecnologias de produção e de gestão levaram a que os serviços passassem a ter crescente protagonismo nas economias.

O caso americano é emblemático. Embora represente 77% do PIB, parcela significativa do setor de serviços está, na verdade, fortemente associado à indústria numa relação simbiótica que, ao final, geram-se riquezas, empregos, competitividade e prosperidade. Tratam-se de serviços de custos, como logística, telecomunicações, limpeza, vigilância, alimentação, reparo e manutenção, mas, também, e sobretudo, de serviços de agregação de valor e diferenciação de produtos, como P&D, design, projetos, softwares, serviços profissionais, marcas e marketing. Hoje sabemos que este segmento se desenvolveu, em boa parte, como resposta às demandas e necessidades da indústria. Não por acaso, a indústria é o maior financiador das inovações do setor de serviços daquele país.

Mas a convergência de bens e serviços já está adentrando um novo capítulo – embora a Apple venda telefones, computadores e outros objetos, ela é, acima de tudo, uma empresa produtora de serviços. Já a Google, grande produtora de serviços, está se tornando, cada vez mais, uma vendedora de objetos como carros, telefones e computadores. O que as duas empresas têm em comum é a percepção de que o grande salto está na sinergia entre bens e serviços para agregar valor, o que as está levando a produzir e vender serviços e funcionalidades embutidas em bens desenvolvidos por elas mesmas.

A indústria brasileira viria a seguir caminho distinto. Protegida que era, não promoveu o desenvolvimento de um setor de serviços moderno porque não se interessava em diferenciar produtos, agregar valor e conquistar mercados internacionais. O encolhimento da indústria viria a ceder espaço para a expansão de um setor de serviços voltados para o consumo final e para a provisão de serviços de custos, ambos naturalmente pouco expostos à concorrência. Aqui teria origem uma das chagas do Brasil, que é a persistente e elevada inflação dos preços dos serviços.

Assim, embora Brasil e Estados Unidos tenham, hoje, praticamente a mesma participação da indústria no PIB, a densidade industrial americana é quase dez vezes maior que a nossa. O que importa, portanto, não é o tamanho da indústria, mas o que ela produz, como e com quem.

Para que a renda per capita do Brasil volte a crescer e venha a se aproximar daquela de países ricos, será preciso que o setor de serviços se modernize e se sofistique e que contribua para aumentar a competitividade de outros setores. O dilema que se impõe ao país é, isto sim, o do que fazer para reduzir o nosso imenso atraso na agenda de serviços. Devemos abrir o mercado ou devemos protegê-lo e estimulá-lo?

Talvez a resposta esteja no meio. A esta altura, teremos que ser pragmáticos e desenvolver políticas que compatibilizem, de forma equilibrada e sustentável, a competição com o encorajamento de investimentos em segmentos seletivos do setor. Em qualquer circunstância, e contrariamente ao que vemos hoje, os serviços terão que passar a ser parte integrante do núcleo da agenda de crescimento e das políticas setoriais, incluindo a industrial, a tecnológica, a comercial, a de investimentos e a de capital humano.

Publicado no Valor Econômico em 1/4/2015

[1] Professor de economia da UnB. Email: jarbache@gmail.com.