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Indústria Ou Densidade Industrial?

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Por Jorge Arbache

 

O iPad é um produto industrial ou um serviço? Como o iPad é produzido com alumínio, vidro, plásticos e outros materiais e é fabricado numa típica linha de montagem Taylorista, então, por certo, é um produto industrial. Mas, como 93% do valor do iPad remunera serviços como softwares embarcados, marca e design, então é mais que razoável considerá-lo um serviço. Do ponto de vista do usuário, iPad sem softwares não tem valor.

O mesmo vale para softwares sem iPad. Esse aparente imbróglio conceitual destaca uma das características da moderna atividade industrial, qual seja, a combinação da indústria com serviços numa relação de mútua dependência para criar valor, e a dificuldade de se identificar a linha divisória que separa as duas atividades.

Mas nem sempre foi assim. A história econômica dos países hoje ricos sugere que, no estágio inicial do desenvolvimento industrial, aumentava a participação da indústria no PIB com pouca integração desse setor com o de serviços. Mas, à medida que a indústria ia ganhando corpo e relevância na economia, registrava-se tendência de lenta, mas crescente introdução de novas tecnologias e inovações e produção de bens industriais de mais alto valor agregado. A certa altura, passaram a crescer a complementaridade e a interação funcional da indústria com os serviços, levando ao aumento do valor adicionado total e à queda da participação da indústria no PIB.

O estágio atual do desenvolvimento industrial em muitos países ricos é uma indústria com mais baixa participação no PIB, mas com mais alta densidade industrial. Esse estágio se caracteriza pelas sofisticadas relações entre a indústria e os serviços para gerar riquezas e inovações1.

É preciso uma agenda de políticas para a modernização e aumento da competitividade do setor de serviços

Um exemplo ilustrativo são os Estados Unidos. Muito embora a indústria representasse apenas 12% do PIB em 2012, o setor era responsável por nada menos que 66% dos investimentos privados totais em pesquisa e desenvolvimento e continuava a ter fortíssima influência nos destinos da economia. A indústria já é um dos principais responsáveis pela recuperação americana da crise financeira de 2008. Setores inteiros experimentam franca modernização e expansão e registram significativo aumento das exportações. Tudo isso, graças à novas tecnologias que, combinadas com sofisticadíssimos serviços integrados e de alta qualidade e queda do preço da energia, estão dando vazão à elevação da densidade industrial e ao aumento da eficiência e da competitividade. Como consequência, plantas industriais, antes instaladas além-mar, estão voltando para casa.

Países de industrialização tardia, como a Coreia do Sul, já perseguem trajetórias de desenvolvimento industrial similar à de países ricos, porém, com a substancial diferença que avançam aquelas etapas em períodos de tempo muito mais curtos devido às suas agressivas políticas públicas de promoção da densidade industrial. A indústria ainda participa da economia com elevados 31% do PIB, mas é a densidade industrial que mais faz crescer. Como resultado, marcas coreanas de produtos tecnologicamente avançados competem com sucesso com as dos países ricos e já até assumem a liderança em alguns setores. Na China, a indústria ainda responde por 30% do PIB, mas suas políticas públicas também já estão priorizando o aumento da densidade industrial. Em ambos os países, a participação da indústria na economia deverá cair ao longo dos próximos anos.

No Brasil, a indústria chegou a ter participação de 35% no PIB. Hoje, tem 15%.A queda da participação não é, per se, um problema, longe disso. O problema é que a indústria encolheu antes de ter aumentado a densidade industrial. Com isso, a indústria encontra-se despreparada para competir e para participar das cadeias internacionais de valor. De fato, a nossa densidade está estagnada há muitos anos e hoje corresponde a cerca de metade da chinesa e à décima parte da coreana – dez anos atrás, a nossa densidade era duas vezes maior que a chinesa e seis vezes menor que a coreana. E por que a densidade cresceu pouco? Porque, além das velhas chagas associadas à burocracia, impostos e custo do crédito, investimos pouco em capital físico por trabalhador, capital humano, novas tecnologias, inovações, gestão e, sobretudo, oferta de serviços públicos e privados que contribuem, direta e indiretamente, para a produtividade e a competitividade industrial.

Parece-nos pouco razoável que um país com as dimensões territoriais e populacionais do Brasil, e com as suas ambições de protagonismo internacional, deva abdicar do direito de ter uma indústria forte. Mas a esta altura do jogo do comércio internacional e com as fortes demandas sociais, limitações de poupança e espaço fiscal que temos, também nos parece pouco razoável que o país possa alocar recursos mais significativos para promover o crescimento expressivo da participação da indústria no PIB. Parece-nos mais promissor apostarmos no aumento da densidade industrial.Para tanto, será necessária uma decisiva agenda de promoção dos fatores que contribuem para a sua expansão. Considerando-se que os serviços são especialmente caros, insuficientes e tecnologicamente defasados e que são determinantes para a indústria, a agenda deveria ter, como uma das suas prioridades, políticas de modernização e ampliação da competitividade daquele setor.

1 A densidade industrial, medida como o valor adicionado da indústria (em R$) dividido pela população total do país, captura a capacidade e o interesse de uma sociedade em mobilizar recursos, incluindo capital físico e humano, P&D e infraestrutura, para promover o desenvolvimento industrial (verwww.ssrn.com/abstract=2150684).

Jorge Arbache é assessor da presidência do BNDES e professor da Universidade de Brasília. Este artigo não representa necessariamente as visões do BNDES e de sua diretoria. jarbache@gmail.com.

Jorge Arbache é economista. Tem longa experiência nas áreas governamental, setor privado, organizações internacionais e academia.É especialista em economia brasileira, economia africana e economia internacional. É Assessor Econômico da Presidência do BNDES desde 2009 e Professor de Economia da Universidade de Brasília. Foi Economista Sênior do Banco Mundial em Washington, DC, onde dirigiu várias edições do relatório anual para a África. Tem vários livros e dezenas de artigos científicos e capítulos de livros publicados, incluindo estudos nas áreas de crescimento econômico, economia internacional, economia do trabalho, economia industrial e pobreza. Tem se dedicado, mais recentemente, à agenda de produtividade, competitividade, comércio internacional, demografia, crescimento econômico e relações econômicas entre Brasil e China. Seu último livro é “Gender disparities in Africa’s labor markets” (World Bank, 2010).

Leia mais em:

http://www.valor.com.br/opiniao/3244144/industria-ou-densidade-industrial#ixzz2cmb3sNcs. 23/08/2013.

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