Empreendedorismo e Inovação Sustentabilidade

Empresas Que Investem Em Sustentabilidade: Mito Ou Verdade

No mercado financeiro nacional e internacional, iniciou-se uma tendência de investidores, com visão de longo prazo, em privilegiar ações de empresas que são socialmente responsáveis e sustentáveis ambientalmente e, no entanto, sejam rentáveis. Uma empresa que consegue ser lucrativa e “verde”, poderá garantir valor, acima da média do mercado, aos seus acionistas em longo prazo.

Porém o que é uma empresa socialmente e ambientalmente responsável?

Uma empresa socialmente e ambientalmente responsável é aquela que investe, tanto em ações de responsabilidade social, quanto de sustentabilidade ambiental, além de garantir que sua produção de bens e/ou serviços atendam normas e procedimentos, buscando minimizar ao máximo impacto de seu negócio para meio ambiente.

São diversas as formas que uma empresa pode tornar-se socialmente e ambientalmente responsável. Uma das ações, por exemplo, que vem ganhando força no mercado é a obtenção de selos como o LEED® (Leadership in Energy and Environmental Design®) concedida pelo Green Building Council (http://www.gbcbrasil.org.br/pt/), uma certificação para edifícios sustentáveis que avaliam critérios de racionalização de recursos (energia, água etc.) atendidos por um edifício.

Mas, por quê as empresas responsáveis socialmente e ambientalmente poderão ter uma valorização acima da média de mercado?
Existe uma premissa, que vem sendo alvo de diversas pesquisas, que uma empresa, ao atender as demandas sociais e ambientais, estaria mais preparada para possíveis riscos econômicos proveniente de mudanças nas posturas por parte dos clientes (i) e/ou ocorrências de eventos ambientais (ii).

A mudança na postura dos clientes pode ser percebida pelo engajamento de diversas pessoas em causas ambientais, buscando mitigar os riscos, ocasionados por problemas ao meio ambiente gerados por empresas. Pode-se perceber no dia-a-dia, que diversos consumidores passaram a levar suas próprias sacolas recicláveis para os supermercados, rejeitando as de plástico, visto que as embalagens plásticas representam um risco ambiental, pois as mesmas demoram cerca de 400 anos para se degradar no meio ambiente.

Com a mudança de postura das pessoas, apoiadas por companhas, como o do ministério do Meio Ambiente, por exemplo, “o Saco é um Saco” (http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/lixo/conteudo_479075.shtml) a indústria brasileira deixou de produzir 5 bilhões de sacolas plásticas, entre 2009 e 2010, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras – http://www.abrasnet.com.br/). Ainda de acordo com a Abras, se for avaliado a redução de sacolas plásticas, entre 2007 e 2010, houve uma redução de quase 22%, passando de 17,9 milhões de sacolas em 2007, para 14 milhões 2010. A redução do uso das sacolas plásticas, no entanto, não representa um decrescimento nas vendas dos supermercados, pois desde 2007, há um crescimento de 1,15% ao mês na taxa de variação nominal do índice nacional de vendas (IPEA – http://www.ipeadata.gov.br).

Se avaliarmos o impacto econômico para as empresas produtoras de sacolas plásticas, percebe-se que as mesmas estão entrando em um profundo período de declínio, caso as mesmas não tenham se preparado para este evento.
A importância do engajamento das empresas em uma postura mais sustentável, com o intuito de valorizar suas ações, denominado de “investimentos socialmente responsáveis” ou “SRI – Socially Responsible Investing” – pode ser percebida pela criação de um índice em 2005, pela BOVESPA/BM&F em conjunto com as seguintes instituições, ABRAPP, ANBIMA, APIMEC, IBGC, IFC, Instituto ETHOS e Ministério do Meio Ambiente, seguindo a tendência das principais bolsa de valores do mundo, que visa medir quanto às empresas estão investindo em projetos sustentáveis, denominados de ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial(http://www.bmfbovespa.com.br/indices/ResumoIndice.aspx?Indice=ISE&idioma=pt-br).

O ISE leva em consideração o Triple Bottom Line que é tripé da sustentabilidade, ou People, Planet, Profit. O Triple Bottom Line corresponde aos resultados de uma empresa medidos em termos sociais, ambientais e econômicos gerando um relatório de acompanhamento dos investimentos realizados pela empresa e seus retornos obtidos com este investimento.
Na Europa Ocidental, 68% das multinacionais fazem este tipo de relatório e, nos Estados Unidos um total de 41% das empresas já realizam tal ação.

ISE reflete o retorno das ações de empresas comprometidas com a responsabilidade social e a sustentabilidade empresarial, além de atuar como promotora das boas práticas no meio empresarial.

Este indicador vem sendo usado para avaliação de risco, que pode, entre outros fatores, liberar crédito para as empresas. O BNDES, seguindo esta tendência, desenvolveu um modelo de classificação de risco ambiental, considerando duas questões:
1.    a mensuração do montante de custos e de passivos ambientais da empresa – que está diretamente ligado ao quanto a empresa agride o meio ambiente em seu processo produtivo;

2.    e a avaliação da efetiva capacitação em administrar e gerenciar financeiramente o passivo ambiental.

Visto que há um movimento de valorização das empresas, pelas organizações financeiras, assim como das bolsas de valores do mundo, o que impede maior engajamento das empresas em realizar investimentos sócio ambiental?

O volume de investimentos de ações sociais pelas empresas que opera no Brasil vem crescendo ano a ano, de acordo com pesquisa realizada pela Comunitas (http://www.comunitas.org.br/), ONG criada pela ex-primeira-dama e antropóloga Ruth Cardoso. Em 2009 empresas como a Vale, Votorantim, Holcim e Bradesco, aplicaram 1,13% de seu lucro em investimento sócio-ambiental – considerando o valor obtido através a mediana de todos os investimentos realizados – ficando maior que o valor investido pelas empresas sediados nos Estados Unidos, que chegou a 1,12%, no mesmo ano e utilizando ainda a mesma métrica de medida.

O volume de empresas, no entanto, que fazem este investimento sócio-ambiental no Brasil são baixas, chegando a menos de 1% do numero de empresas americanas. Um dos motivos que desestimulam as empresas a se engajarem mais, é a falta de incentivo governamental. Enquanto nos Estados Unidos o abatimento dos impostos para doações sócio-ambientais são de 10% e, no Brasil, limita-se a 2% do lucro operacional (fonte: Receita Federal).

O incentivo governamental é crucial, pois ainda são poucos e intangíveis, os ganhos reais de uma empresa para focar parte de seu lucro, para investimentos em sustentabilidade.

É ainda incipiente na cabeça da população o motivo pelo qual irão ter que pagar mais por um produto “verde”.  Muitas pessoas, principalmente as pertencentes a nova classe média, estão mais preocupadas em satisfazer sua demanda reprimida de anos e adquirir bens e produtos que anteriormente ficavam apenas em seu imaginário.

Atualmente com mais renda, porém ainda limitada, as pessoas buscam atender seus desejos, montando um quebra cabeça orçamentário, na tentativa de descobrir qual o conjunto de gastos que irá melhor lhe satisfazer.

A pergunta é, abdicar de um produto verde para aumentar sua cesta de compras é preferível do que reduzir os produtos comprados e garantir a sustentabilidade do planeta?

Temos então um conjunto de realidades que se confrontam, sendo elas:

·      O mercado vem incentivando investimentos sustentáveis através de selos e indicadores verdes, além de modelos de riscos que privilegiam empresas com investimentos em sustentabilidade;

·      Não se tem de forma concreta, qual o retorno financeiro real de uma empresa ao realizar investimentos sócio ambiental – existem diversos casos pontuais de sucesso financeiro, porém que ainda representam parte extremamente marginal do lucro total de uma organização;

·      A grande maioria dos acionistas buscam realizações financeiras de curto prazo, privilegiando investimento especulativo ao de longo prazo, minimizando muito os indicadores sustentáveis;

·      A população brasileira, principalmente aquelas formadas pelos novos consumidores, está mais focada, no momento, em satisfazer seus desejos, a garantir a sustentabilidade do planeta.

Apesar das mudanças estarem ocorrendo, como o mostrado na redução das sacolas plásticas, para que as ações sociais e de sustentabilidade ambiental sejam realmente introduzidas no mundo empresarial, o quebra cabeça: rentabilidade empresarial X percepção de valor do cliente X incentivo governamental deverá ser solucionado.

Apenas para concluir, o custo de trocar as sacolas plásticas por recicláveis, pelos clientes, gerou impacto muito baixo nas economias das famílias. Portanto, disposição existe, porém quem irá pagar a conta?

Ana Paula Arbache

Ana Paula Arbache

Pós-doutora em Educação pela PUC/SP. Doutora em Educação pela PUC-SP. Mestre em Educação pela UFRJ. Certificada pelo Massachusetts Institute of Technology/MIT- Challenges of Leadership in Teams (2015), Leading Innovative Teams (2018). Docente dos cursos de MBA e Pós MBA da Fundação Getúlio Vargas. Orientadora e avaliadora de trabalhos de pós-graduação. Sócia Diretora da Arbache Innovtions, responsável pelas ações de Gestão de Pessoas, Liderança, Governança Corporativa, Sustentabilidade Ética, Social e Ambiental e Elaboração e Aplicação Jogos de Negócios. Pesquisadora e autora das obras: A Educação de Jovens e Adultos Numa Perspectiva Multicultural Crítica (2001), Projetos Sustentáveis Estudos e Práticas Brasileiras (2010), Projetos Sustentáveis: Estudos e Práticas Brasileiras II (2011), Sustentabilidade Empresarial no Brasil: Cenários e Projetos (2012), A crise e o impacto na carreira (2015), O RH Transformando a Gestão – Org. (2018). Certificação em Coaching e Mentoring de Carreira para Executivos. Mentora do Capítulo PMI/SP. Curadora e Colunista do blog arbache.com/blog e Página Mundo Melhor de Empoderamento Feminino Arbache innovations. Fundadora do Coletivo HubMulheres. Palestrante em encontros nacionais e internacionais.

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