Sustentabilidade

Economia Circular – Uma nova Revolução Industrial?

Vamos iniciar este artigo com uma pergunta. Como proporcionar a prosperidade para as pessoas e o bem-estar, considerando que os recursos para produzir este bem-estar são finitos ou escassos? Considere nesta equação que, para muitos, o bem-estar é consumir mais e ter mais. Apesar do consumo exacerbado ser negativo, vamos abstrair esse conceito, limitando-nos a responder como solucionar este problema do crescente consumo.

Vamos iniciar nossa análise avaliando o crescimento populacional do mundo. Em 1950, éramos 2,5 bilhões, de acordo com a World Meters[1]. Já em 2000, passamos para 6 bilhões de habitantes em nosso planeta. Em 2013, pulamos para 7,2 bilhões, chegando a, aproximadamente, 7,5 bilhões em 2017. A população continua a crescer, apesar da taxa de crescimento estar decrescendo continuamente. Na década de 60, a taxa média de crescimento populacional era de 1,99%, passando para 1,26% em 2000, caindo para 1,18% a partir de 2010. Apesar desse decrescimento, estima-se que em 2030, segundo a ONU[2], já seremos por volta de 8,5 bilhões de pessoas.

Apesar de chegarmos a 8,5 bilhões em 2030, a natalidade mundial está decrescendo

E a renda das pessoas, como irá se comportar? A renda também vem igualmente crescendo. Entre 2001 e 2011, houve um significativo crescimento da renda, de acordo com a Pew Research Center[3]. Em 2001, 29% da população era considerado como pobre, que são as pessoas que vivem com apenas US$ 2 ou menos por dia. Já em 2011, o número de pobres decresceu para 15%, representando 52% em relação a 2001. Houve uma mobilidade social incrível, fazendo com que uma boa parte dessa população passasse para a baixa renda, que são pessoas que ganham entre US$ 2 e 10 por dia; passaram de 50% da população global em 2001 para 56% em 2011. Mas a classe que mais adicionou gente foi a classe média, que ganha entre US$ 20 e 50 por dia, passando de 7% da população mundial para 13%, um incrível crescimento de 46%. A seguir, um gráfico com estes números, que facilitará a análise:

Em 10 anos, o número de pessoas inseridas na classe média passou de 493 milhões para 809 milhões. São 316 milhões de pessoas ávidas a consumir mais energia, água, alimentos, smartphones, televisores, computadores, ou seja, tudo aquilo que irá demandar mais e mais recursos. Apenas para consumo da classe média, em 2016 gastou-se 35 trilhões[4] de dólares em produtos manufaturados, comida, água, energia e tudo mais que se possa comprar. Em 2030, este gasto irá explodir, chegando aos 64 trilhões de dólares, ou seja, 29 trilhões a mais. Este valor representa 1/3 de toda a economia global.

Em 2016, a classe média gastou 35 trilhões e estima-se que, em 2030, chegará à 64 trilhões

Retorne agora ao início do artigo e repense: como esse gigantesco consumo irá impactar na capacidade da natureza e das pessoas em produzirem recursos para atender essa imensa demanda? Qual o impacto que isto trará na natureza? Será necessário ampliar a extração de mineração, as áreas plantadas, criar mais gado, aumentar a pesca, implantar mais indústrias de todos os tipos, construir mais casas, prédios, rodovias, trens, carros, ônibus, aviões, ou seja, tudo que seja necessário para saciar a sede de consumo.

Com o consumo vêm os resíduos, como embalagens, lixo orgânico e, o pior, lixo tecnológico. Com a obsolescência programada, mais e mais inovação incremental irá surgir, estimulando as pessoas a comprarem mais, para estarem dentro do padrão de uso aceito pela sociedade, permitindo que consigam acessar os aplicativos que rodam exclusivamente nos modelos mais modernos de smartphones. Novas tecnologias e recursos estão surgindo e, certamente irão tornar os equipamentos ainda mais bacanas. Recursos como o IOT e IOE[5] darão uma nova vida aos equipamentos conectados à internet, deixando-os mais espertos e, certamente, ninguém irá querer ficar de fora dessa onda.

Como solucionar este problema? Como reduzir os impactos ambientais que o consumo causa?

 

Na China, o conceito de Economia Circular foi adotado oficialmente a partir de 2002, como uma nova proposta de desenvolvimento sustentável, que busca manter o crescimento, sem que haja grandes prejuízos ao meio. Assim como a China, a União Europeia vem também considerando a Economia Circular como uma das políticas de gestão de resíduos. O relatório publicado em 2014 pelo Fórum Econômico Mundial, Towards the Circular Economy[6], em parceria com a Fundação Ellen MacArthur[7] e a McKinsey Centre for Business and the Environment, gerou visibilidade dessa ideia para o mundo dos negócios.

“A ECONOMIA CIRCULAR é um sistema desenhado para ser restaurativo e regenerativo”.

(Charonis, 2012 – Ghisellini et al., 2015)

 

A ECONOMIA CIRCULAR pode ser explicada como o oposto à economia linear, porém antes de continuarmos, vamos esclarecer os conceitos de Organização e Economia Linear. Organizações Lineares[8] são as empresas crescem organicamente, isto é, para aumentar as vendas, é necessário investir em mais fábricas, mais infraestrutura, mais pessoas, ou seja, em investimento intensivo em estruturas físicas e operacionais. Já a Economia Linear são empresas baseadas em “extrair–produzir-descartar”. São dois conceitos distintos que podem se encontrar, pois uma empresa linear pode ou não estar inserida em uma Economia Linear.

No conceito de economia ou sistema de produção linear, o crescimento econômico irá depender do consumo intensivo de recursos que são finitos, o que traz riscos de esgotamento de matérias-primas. Com a redução da oferta de matérias-primas devido à escassez, há uma tendência da elevação nos custos da extração, podendo trazer diversos impactos na economia, como, por exemplo, a inflação, que tem como consequência aumento dos custos de vida e redução das rendas, o que poderá ter como resultado o surgimento de crises econômicas. Além destes problemas, a economia linear aumenta o descarte de resíduos e, considerando os resíduos provenientes dos aparelhos eletrônicos que estão crescendo exponencialmente, estes descartes serão de produtos que são tóxicos aos seres humanos e ao ecossistema, causando doenças nas pessoas e contaminando o meio-ambiente.

“A ECONOMIA CIRCULAR é uma nova forma de pensar sobre o futuro e como organizamos nossas economias e sociedades”.

(Pitt e Heinemeyer, 2015)

 

Opondo-se à Economia Linear, o conceito de Economia Circular tem como proposta retornar tudo que, em tese, deveria ser descartado, mantendo tudo que se produz circulando continuamente, em uma cadeia de produção ou entre várias cadeias de produção, mantendo tudo que é extraído circulando continuamente. Esse processo irá maximizar o uso dos recursos, fazendo com que sejam reutilizados por longo prazo, diminuindo a necessidade de mais extração. Um exemplo bem simples de ser dado são as latas de alumínio, que, ao serem reaproveitadas, reduzem e muito a necessidade de grandes extrações de bauxita e produção de alumínio. A transformação de bauxita e alumina em alumínio faz com que este tipo de indústria lidere o ranking dos maiores consumidores industriais de energia elétrica do país.

A Economia Circular faz com que as empresas passem de gestoras de resíduos para desenvolvedoras de design de produtos e sistemas. O objetivo é, ao invés de pensar em resíduos ou lixo, desenvolver cada material que irá compor um produto para que faça parte de um fluxo cíclico, possibilitando que, ao final do uso de um determinando produto, suas partes retornem ao ciclo produtivo. Cada parte dos materiais que compõe um produto passa a ser parte de um processo de reutilização, para o mesmo equipamento ou para outras cadeias de produção.

Retornando ao início de artigo, onde foi colocado o problema do crescimento econômico e da escassez de matéria prima. Com a adoção da Economia Circular, o crescimento econômico se dissocia do consumo crescente de novos recursos, o que possibilita mais aproveitamento dos recursos naturais e dos reaproveitados, aumentando a capacidade de ofertas e sem geração de crises econômicas causadas por escassez. Assim, a Economia Circular poderá ser uma solução para o crescimento das rendas e o bem-estar social.

 


[1] http://www.worldometers.info/world-population/world-population-by-year/

[2] http://www.un.org/sustainabledevelopment/blog/2015/07/un-projects-world-population-to-reach-8-5-billion-by-2030-driven-by-growth-in-developing-countries/

[3] http://www.pewglobal.org/2015/07/08/a-global-middle-class-is-more-promise-than-reality/

[4] https://www.brookings.edu/research/the-unprecedented-expansion-of-the-global-middle-class-2/

[5] Ver artigo de IOT e IOE – Qual a diferença entre Internet of Things e Internet of Everything

[6] https://www.mckinsey.com/business-functions/sustainability-and-resource-productivity/our-insights

[7] https://www.ellenmacarthurfoundation.org/assets/downloads/TCE_Ellen-MacArthur-Foundation_9-Dec-2015.pdf

[8] Para saber mais, ler o texto: Organizações Exponenciais

Fernando Arbache

Formação: Graduado em Engenharia Civil, ufjf, Especialização em Curso de Análise, Projeto e Gerência de Sistemas, Mestre em Engenharia Industrial PUC/Rio. Doutorado em Sistemas de Informação – COPPE/UFRJ. Data and Models in Engineering, Science, and Business/MIT, Cambridge, MA (USA). AnyLogic Advanced Program of Simulation Modeling/Hampton, NJ (USA). Pesquisa em desenvolvimento de Infraestrutura Aeronáutica – ITA. Pesquisa em desenvolvimento de Aeroportos – ITA. Experiência Acadêmica: Coordenador da FGV em cursos de Gestão (curso de MBA em Gestão das Casas Bahia). Professor BSP nas cadeiras e Logística e Sistemas de Informação. Professor da Fundação Getúlio Vargas/São Paulo nas cadeiras e Logística e Sistemas de Informação. Professor da HSM Educação. Professor IBMEC nas cadeiras de Logística e Administração de Projetos. Professor do Alto comando da Marinha de Guerra Brasileira nas cadeiras de Logística e Sistemas de Informação. Professor da pós-graduação do IME (Instituto Militar de Engenharia). Professor Fundação Dom Cabral – Jogos de Negócios e Logística. Professor concursado na FATEC/São José dos Campos – Estatística Aplicada e Jogos de Negócios. Livros escritos: ARBACHE, F. Gestão da Logística, Distribuição e Trade Marketing. São Paulo: Ed. FGV, 2004. ARBACHE, F. Logística Empresarial. Rio de Janeiro: Ed. Petrobras, 2005. ARBACHE, A. P. e ARBACHE, F. Sustentabilidade Empresarial no Brasil: Cenários e Projetos. São José do Rio Preto- SP: Raízes Gráfica e Editora, 2012. Experiência Profissional: Atual Sócio-Diretor das empresas: Arbache Tecnologia Educacional (http://www.arbache.com). Jogos de Negócios para clientes como: Vale (I. Desenvolvimento de Jogos de Negócios, para gerenciamento de Risco Ferroviário – com enfoque em Saúde e Segurança. II. Desenvolvimento de Jogos de Negócios para capacitar aos gestores a compreenderem a visão holística de toda a cadeia de valor da empresa no Brasil e em Moçambique), Ecorodovias (desenvolvimento do Simulador do Pedágio – treinamento dos operadores de cabine de pedágio, para aceleração do conhecimento a respeito da operação de pedágio).

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