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Desemprego: E Agora, José?

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Publicado no Valor Econômico, 6 de maio de 2015

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?

(Verso de “José”, Carlos Drummond de Andrade)

Jorge Arbache[1]

Desemprego é variável chave para se entender o Brasil das décadas de 2000 e 2010. A razão desta relevância são as suas fortes relações com a economia e a política. No primeiro semestre de 2004, a taxa média de desemprego era de 12,2%; 10 anos depois, era de apenas 4,9%, patamar próximo daquilo que os economistas chamam de pleno emprego. Instigante mesmo foi o declínio praticamente contínuo do indicador entre aqueles dois períodos e nem mesmo os altos e baixos da economia e nem a crise financeira internacional de 2008 e 2009 seriam capazes de alterar de forma significativa aquela trajetória incomum de queda. O ritmo de declínio do desemprego começou a diminuir em 2011 e, dali em diante, a queda se tornou cada vez menor até que, eventualmente, fez uma inflexão em fins de 2014 e passou a subir em 2015.

Por que o desemprego experimentou movimento contínuo de queda? Para além do aquecimento da economia registrado no período 2004 a 2010 estariam ao menos dois fatores estruturais. Um primeiro seria a transformação demográfica e seus reflexos na oferta de trabalho. Como estamos na reta final do chamado período de bônus demográfico, a taxa de crescimento da população em idade ativa (15 a 60 anos) está aumentando cada vez menos, ou seja, a cada ano, menos pessoas estão se integrando ao contingente populacional em idade para trabalhar, o que, tudo o mais constante, afeta a disponibilidade de trabalhadores no mercado.

Um segundo fator seria a expansão do setor de serviços. Entre 2004 e 2014, a participação do setor no PIB passou de 63% para 70%, o que se deu, basicamente, às custas da queda da participação da indústria, que passou de 19% para 13%. Como o setor de serviços é, de longe, o mais intensivo em emprego em razão da sua baixa e estagnada produtividade do trabalho, a sua expansão foi acompanhada da criação desproporcionalmente elevada de novos postos de trabalho. De fato, 83 de cada 100 novas vagas formais criadas na economia tiveram origem nos serviços.

O crescimento cada vez mais lento da população em idade para trabalhar combinado com o crescimento do setor de serviços e algum crescimento econômico gestaram uma receita imbatível para implodir o desemprego e aumentar os salários reais, o que viria a caracterizar a economia do período 2004-2014.

Infelizmente, o longo ciclo de queda do desemprego parece ter chegado ao fim. A forte desaceleração da economia observada a partir de 2011 e as perspectivas de baixo crescimento para os próximos anos teriam sido as causas mais imediatas daquela mudança de tendência. Mas haveria, ainda, causas estruturais. Aproximação do fim do bônus demográfico, produtividade do trabalho deficiente e aumento dos salários reais aliados à baixa taxa de poupança, baixo investimento em infraestrutura, marco regulatório desfavorável, deterioração fiscal e alto custo do capital levaram a economia a operar com padrão de custos elevado e crescente e com competitividade internacional baixa e cadente, afetando as perspectivas de crescimento econômico e de emprego.

Expectativa de crescimento global mais lento juntamente com desaceleração da China, piora dos termos de troca, aumento da competição entre países emergentes por um lugar ao sol, ameaça do protecionismo, mudanças do clima e endividamento das famílias também devem comprometer a geração de emprego nos próximos anos.

Haveria, portanto, razões para se acreditar que, ainda mais preocupante que o aumento conjuntural do desemprego seria a eventual mudança do seu patamar para níveis mais elevados. Esta talvez venha a ser uma das características marcantes da nossa economia no futuro próximo.

Mas a relevância do desemprego não se restringe à sua dimensão econômica. Ao reduzir a desigualdade e a pobreza e contribuir para a ascensão social de milhões de pessoas, a queda do desemprego e o aumento da renda também tiveram impactos políticos significativos. A então melhoria dos termos de troca decorrente do boom das commodities, valorização cambial e farto acesso a crédito internacional nos anos 2000 viriam a ajudar a compor um quadro econômico artificialmente favorável em que praticamente todas as classes sociais e setores de atividade se beneficiariam – era como se tivéssemos desenvolvido um modelo econômico sem escassez que possibilitava ganhos a todos sem sacrifícios extras. O sentimento de prosperidade nos conduziria à acomodação quanto à necessidade de se levar adiante uma agenda mais que urgente de reformas econômicas e políticas. Afinal, diriam o desavisado e o populista, time que se ganha não se mexe.

E o que esperar para o futuro? É provável que o eventual aumento do patamar do desemprego seja uma mudança mais permanente que transitória, a despeito da demografia, o que poderá gerar frustração, em especial por parte daqueles que ascenderam socialmente nos últimos anos, com consequências econômicas e políticas importantes.

Os desafios à frente serão grandes. Teremos que dar conta do desemprego em elevação num ambiente econômico e político mais desfavorável e constrangedor. Será preciso articular medidas de curto prazo de mitigação dos efeitos sociais do desemprego com políticas e reformas que aumentem a competitividade da economia, a produtividade e a eficiência no uso dos recursos e atraiam investimentos, nacional e estrangeiro, de forma a que a economia possa voltar a crescer e gerar empregos de forma sustentada no médio prazo. Acima de tudo, será preciso que essas medidas sejam parte de um plano de voo coerente.

Ousadia, liderança, espírito público, determinação e espírito aberto a novas ideias serão elementos fundamentais para fazer a diferença e nos conduzir para águas mais calmas durante a tempestade que provavelmente nos aguarda.

[1] Professor de economia da UnB. Email: jarbache@gmail.com