Mercado

Convergência ou Divergência de Renda? Desafios do Desenvolvimento no Século XXI

econômia

Jorge Arbache

Introdução

Parece-nos razoável considerar que o interstício dos quase vinte anos que separam a queda do Muro de Berlim, em 1989, da crise econômica global, em 2008, seria o grande divisor de águas entre os séculos XX e XXI no que tange às condições e perspectivas do desenvolvimento econômico. Isto porque, de um lado, as mudanças que se seguiram a 1989 levaram o mundo a rever orientações políticas e econômicas que pareciam ter já se sedimentado nas décadas anteriores com grandes implicações para os países periféricos. De outro lado, a crise de 2008, ao levar a nocaute os Estados Unidos, colocar em questão o projeto Europa, acelerar o fim da era de hegemonia japonesa na Ásia e dar vazão para que os BRICS assumissem maior protagonismo, levou à revisão de dogmas econômicos liberais que foram se cristalizando desde o pós-1989.

De fato, muitas grandes transformações têm tido lugar quase que simultaneamente desde então. Na economia, a mais importante mudança foi a globalização e a crescente interdependência entre as economias, mas figuram, ainda, eventos críticos como a ascensão da China, a crescente influência dos governos nos destinos das economias, as novas tecnologias de produção e de organização da produção e o crescente protagonismo do setor de serviços na criação de riqueza.

Encontra-se ainda em esboço uma nova geografia da produção e da inovação. Os Estados Unidos voltaram a dar atenção para a indústria e o setor já é um dos principais responsáveis pelo crescimento do produto e do emprego naquele país. Apoiadas por políticas industriais e monetárias heterodoxas, novas tecnologias e pelo aumento dos custos do trabalho na China, as exportações industriais americanas vêm aumentando e seus efeitos já se fazem sentir. Embora os custos do trabalho nos Estados Unidos sejam muito mais elevados que em países emergentes, o uso de sofisticadas tecnologias e a elevada produtividade do trabalho têm compensado o diferencial de custos e estão contribuindo para recolocar o país no mapa da indústria. Já se observa até um movimento de retorno de plantas industriais americanas antes operando em países de baixo custo, o que levou o presidente da GE, Jeffrey Immelt, a declarar que “outsourcing is quickly becoming mostly outdated as a business model”.2

Países asiáticos como a Índia, Vietnã e Indonésia, e países africanos estão investindo na manufatura de massa encorajados pelo crescimento dos mercados domésticos e regionais, aumento dos custos do trabalho na China e busca das multinacionais por diversificação geográfica da produção. A China, por sua vez, deverá investir cada vez mais naquelas regiões para ali produzir manufatura de massa ao tempo em que ela faz a sua transformação produtiva através de profundo programa de upgrade científico e tecnológico.

No campo da energia, grandes mudanças já apontam no horizonte. Novas fontes de energia e novas tecnologias de produção, conservação e de eficiência energética deverão mudar as condições de competição em muitos mercados. Os Estados Unidos, de maior importador, estão se transformando em grande potência produtora de hidrocarbonetos por vias de tecnologias que estão viabilizando a exploração de gás e óleo de xisto. A revolução energética já traz e trará impactos ainda maiores para a nova geografia da produção, com reflexos especialmente significativos para os países em desenvolvimento mais dependentes da exportação de petróleo.

As commodities, fonte básica de recursos externos e de crescimento de muitos países em desenvolvimento, tornaram-se alvos de especulação financeira e causa e consequência de volatilidade, expondo e fragilizando os países exportadores, fomentando bolhas especulativas e impactando as taxas de câmbio e de inflação.

Por outro lado, o avanço econômico dos BRICS talvez tenha sido a maior novidade deste início deste século. O PIB combinado desses países passou de US$ 2,8 trilhões, em 2002, para US$ 17 trilhões, em 2014, e a sua participação na economia global saltou de 8% para 25%.

Há uma percepção aparentemente comum de que essas mudanças estariam criando uma sensação de encurtamento do tempo. Mais que isso, elas estão criando até mesmo dificuldades para se identificar e isolar relações econômicas de causa e efeito. Por certo, a economia global está se tornando muito mais complexa e menos previsível e o desenvolvimento econômico uma tarefa muito mais desafiadora.

Este breve texto trata desses assuntos. Para tanto, explora alguns dos pontos que consideramos fundamentais para o entendimento dos desafios do desenvolvimento econômico nestas primeiras décadas do século XXI e para as perspectivas de convergência de renda entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

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Desafios do Desenvolvimento no Século XXI Conferencias de Lisboa 2014