Sustentabilidade

A Sustentabilidade Oculta

sustentabilidade oculta

Por Rossana Venturieri

Vinte anos trabalhando na Amazônia, do Peru ao Marajó, me mostraram vários significados para sustentabilidade.

Com o olhar parado no meio do rio, o pescador percebe o brilho rápido da escama ao sol. É um cardume que passa, vai ter alimento farto na semana. O menino, ainda pequeno, vai para escola sozinho, remando na imensidão das águas – as batidas ritmadas sustentam o sonho de uma vida melhor. As professoras são tudo nas comunidades: mães, tias, conselheiras matrimoniais, apoio de adolescentes e lideres nas iniciativas para conseguir melhorias para as escolas e para a comunidade. Muitas são pouco mais que alfabetizadas, mas é por meio delas que se forma a frágil teia do desenvolvimento.

As mulheres da Amazônia são um capítulo à parte. Repositório infinito de uma força sem precedentes, nutrem seus filhos e os filhos deles. Com suave firmeza mantêm coesos os núcleos familiares, incondicionalmente.

O pesquisador, que se embrenha na mata buscando conhecer a natureza para preservá-la, leva na mochila a doce ilusão de que seu trabalho é “de fundamental importância…”. E é, ainda que seja apenas uma gota no torrencial inverno amazônico. O agricultor, em eterna lida com a floresta, que ora perde, ora ganha, mas transmite a seus filhos os segredos da pequena roça, da boa farinha, da convivência com o mato que engole o milho recém-nascido e com os animais, que revolvem a terra e roubam a mandioca. Guerra e paz.

Os projetos, que se instalam nessas regiões onde falta tudo, que precisam mais do que uma boa área, uma boa ideia, um produto “com potencial”, um aceno político. Precisam de coragem e persistência, de aprendizado e consciência, precisam sustentar-se em seu propósito e trazer bons resultados.

Pode mudar o cenário, podem mudar os atores, pode mudar a percepção. Mas não muda o substrato comum que nos constitui e nos aproxima, que nos faz ser quem somos. Por trás de todos os significados, há a interdependência, a compreensão humana intuitiva, o eterno amanhã, o sonho.
Nestes 20 anos a principal lição, aprendida onde a essência é mais pura: para quem não tem sonhos, a vida não é sustentável.

Foto :Escola da Ilha Mexiana, Marajó,Pará (por Roseli Massafra)