Mercado

A Noite Poderá Ser Longa

crise

Valor Econômico, 4 de fevereiro de 2015

Arbache[1]

A trajetória do crescimento econômico brasileiro tem ao menos duas características marcantes. A primeira é a elevada volatilidade em torno de uma taxa média de crescimento baixa. A segunda é que o crescimento segue ciclos longos de acelerações e de colapsos, os quais são entrecortados pela elevada volatilidade de curto prazo. Dessa forma, pode-se dizer que o nosso crescimento é não sustentado.

O problema é que essas características não são neutras e têm implicações perversas. De fato, a baixa persistência combinada com a alta descontinuidade do crescimento estão associadas à maior aversão ao risco, que estimula a especulação e encoraja as empresas a investir basicamente em projetos de menor risco, mas de baixo retorno social.

Mas aquelas características também estão associadas a comportamentos assimétricos de indicadores socioeconômicos críticos. Produtividade do trabalho, taxa de investimento, desigualdade de renda e taxa de pobreza estão entre as variáveis que se deterioram desproporcionalmente mais durante colapsos do que melhoram durante acelerações do crescimento, o que ajuda a explicar o elevado custo de fazê-los avançar.

Análise do período recente indica que em 1998-99 teria iniciado um ciclo de aceleração do crescimento que perduraria até 2007-08, quando estourou a crise financeira internacional. A partir de então, a economia entraria num ciclo de desaceleração que, de acordo com previsões do nosso modelo, deverá se estender até 2018-19.

Infelizmente, há poucas razões para se esperar que a economia venha a se recuperar de forma consistente antes daquele período, o que sugere que a noite da estagnação econômica ainda poderá ser longa. Dentre os riscos mais imediatos para o crescimento estão as condições altamente desfavoráveis para se fazer negócios no Brasil, os elevadíssimos custos de produção, incluindo os juros reais, a modesta governança pública e privada, o enfraquecimento do ritmo da economia chinesa, a queda dos preços das commodities, os riscos de deflação mundial, a anêmica recuperação do Japão e da Europa, a eventual mudança da política monetária americana, a baixa qualidade da política doméstica e as consequências das mudanças do clima.

Mas, ainda mais preocupante é notar que há poucas razões para se esperar que a renda per capita venha a crescer no horizonte previsível a taxas superiores à taxa de longo prazo de 2,39%. No plano interno, a rápida transformação demográfica, que já causa desaceleração da taxa de crescimento da população em idade ativa, juntamente com a baixa e cadente taxa de poupança já constrangem o produto potencial. A desindustrialização precoce, o exagerado tamanho do setor de serviços no PIB, o qual é caracterizado pela baixíssima produtividade, a reprimarização da economia e o secular atraso do capital humano e seus efeitos cumulativos também contribuem para constranger o produto potencial e comprometer o crescimento de curto e médio prazos.

No plano externo, as megatendências globais, incluindo a crescente interdependência entre as economias, a crescente relevância dos serviços e das novas tecnologias de produção e de gestão para a geração de riquezas e a crescente consolidação dos mercados limitam o uso e reduzem a eficácia das políticas econômicas convencionais, tornando o crescimento de países “late-comers”, como o Brasil, um exercício substancialmente mais desafiador.

A fadiga do modelo de crescimento recente baseado no “low hanging fruit”, qual seja, crédito farto para consumo, gastos públicos, boom das commodities e liquidez internacional, também sugere que será mais difícil crescer.

Mas, afinal, de onde poderá vir o crescimento? Considerando-se os limites estruturais da nossa economia e as características da economia mundial, parece-nos razoável concluir que, mais promissor que perseguir taxas elevadas é perseguir taxas sustentadas de crescimento. Um caminho para isto é atacar as fontes primárias das descontinuidades, o que levaria per se ao aumento da taxa média de crescimento. No Brasil, deterioração das contas externas e escassez de poupança são os principais indicadores antecedentes das descontinuidades do crescimento.

Outro caminho promissor a explorar são os gigantescos espaços de ganhos de eficiência e de produtividade, as oportunidades de industrialização das vantagens comparativas, incluindo agricultura, extração mineral, pré-sal, biodiversidade, energias renováveis, fármacos e indústria aeroespacial, as novas fronteiras de desenvolvimento no interior de vários estados, a agenda de infraestrutura, o mercado doméstico e regional e as compras governamentais como instrumento de alavancagem de novas tecnologias, inovações e soluções.

A retomada do crescimento vai requerer senso de urgência, um plano de voo e uma agenda de elevação do produto potencial. Além do já mencionado, esta agenda deverá ainda envolver a ampliação das fontes de financiamento de longo prazo, a priorização do conhecimento, a maior integração do país à economia mundial, o aumento da população economicamente ativa e, acima de tudo, a reforma e modernização do Estado.

[1] Professor de economia da UnB. Email: Jarbache@gmail.com.