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A eliminação da disparidade salarial de gênero estimulará a expansão econômica global (Parte 3/4)

Nos dois artigos anteriores, você conheceu algumas das histórias pessoais de mulheres em todo o mundo que são afetadas de uma forma ou de outra pela disparidade salarial de gênero. Este artigo visa jogar uma luz sobre como a igualdade de gênero na remuneração pode estimular o crescimento econômico global.

Infelizmente, o Relatório Global de Disparidade de Gênero de 2020 do Fórum Econômico Mundial relata que a disparidade salarial entre gêneros está aumentando, especialmente para trabalhadoras com níveis mais altos de escolaridade. Dados do Ministério do Trabalho do Brasil mostram que 60% dos empregados com diploma universitário são mulheres, mas seus empregadores lhes pagam 36% menos do que para os homens com o mesmo nível educacional. 

Como as mulheres já ganham menos do que os homens – e levando em consideração os papéis tradicionais de cada gênero no ambiente familiar – as mulheres são mais adversamente afetadas pela recessão no Brasil e em outros países do mundo. Nos EUA, a Covid-19 reduziu as taxas de participação das mulheres na força de trabalho a níveis que não eram vistos desde a década de 1980.

Infographic courtesy of PayScale.com

Uma pesquisa da PayScale descobriu que as mulheres frequentemente incorrem em uma penalidade salarial de 7% a menos em média, para a mesma posição, ao retornar ao trabalho após uma ausência. A diferença salarial de gênero para trabalhadores em cargos altamente impactados pela Covid-19 é alarmante. Descobriu-se que professoras do ensino fundamental ganham 92 centavos para cada dólar que um homem ganha. Os comissários de bordo também ganham 92 centavos de dólar para cada dólar recebido por seus colegas homens. Entre os profissionais de saúde, as médicas de família ganham US$0,94 para cada dólar recebido pelos médicos de família, enquanto as enfermeiras ganham US$0,98 para cada dólar dos colegas enfermeiros.

Um relatório do escritório de advocacia internacional Baker McKenzie, que já citamos outras vezes nesta série, fornece mais três razões para a decrescente participação das mulheres na força de trabalho:

1) As mulheres têm maior representação em funções que estão passando por processos de automação.

2) Não há número suficiente de mulheres nas profissões onde o crescimento salarial é mais acentuado (principalmente, mas não exclusivamente, na área de tecnologia).

3) As mulheres enfrentam o permanente problema da insuficiente infraestrutura de cuidado com filhos e familiares e falta de acesso a capital.

Gender pay gap in EU infographic courtesy of francesfitzgerald.ie

Embora seja verdade que Inteligência Artificial, Internet das Coisas, realidade virtual, robótica, computação quântica e tecnologias emergentes da Quarta Revolução Industrial oferecem oportunidades para as mulheres, elas também apresentam perigos.

De acordo com um relatório de junho de 2019 do McKinsey Global Institute, a automação vai potencialmente deslocar uma média de 20% das trabalhadoras (107 milhões de mulheres) até 2030. Considerando que até 160 milhões de mulheres (e 274 milhões de homens) em todo o mundo podem precisar de uma transição profissional para permanecer no trabalho, o relatório conclui:

“Se as mulheres aproveitarem as oportunidades de transição, elas podem manter sua parcela atual de empregos; se não conseguirem aproveitar, a desigualdade de gênero no trabalho pode piorar.”

No Brasil, 78% dos homens têm empregos remunerados, contra apenas 56% das mulheres, segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho (ILO). Estudos mostram, entretanto, que a maioria das mulheres quer trabalhar em um emprego formal. Outra pesquisa da Organização Internacional do Trabalho mostra que a esmagadora maioria de mulheres no Brasil gostaria de ter um emprego formal. Isso fica evidente nas histórias do livro “Carreira Feminina” e nas inscrições de mulheres nos cursos multilíngues do MIT Professional Education.

As perspectivas para as mulheres na força de trabalho são positivas. No Brasil, as mulheres estão se mantendo na força de trabalho na mesma proporção que os homens. O governo brasileiro (junto com outros membros do G-20) se comprometeu a reduzir a desigualdade de gênero na força de trabalho em 25% até 2025 e, como parte das Metas de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, a alcançar salários iguais até 2030.

Aliás, como algumas das habilidades mais valorizadas em uma força de trabalho auxiliada pela Inteligência Artificial são a inteligência social e emocional – campos nos quais robôs deixam a desejar (dentro de um futuro previsível, ao menos!) –, muitos futuristas são otimistas em relação ao potencial das mulheres de prosperar em postos de trabalho que incorporam tecnologias da Quarta Revolução Industrial.

83% das organizações que responderam a uma pesquisa recente da Capgemini acreditam que uma força de trabalho proficiente em inteligência emocional será necessária para o sucesso futuro dos negócios. O relatório adiciona:

  1. As organizações não realizam treinamentos suficientes na construção de habilidades de inteligência emocional para funcionários em todos os níveis, e particularmente para aqueles em funções que não são de supervisão.
  2. As organizações podem obter retornos até quatro vezes maiores investindo em habilidades de inteligência emocional.

Dada a natureza cada vez mais complexa e interdependente do trabalho, os comprovados pontos fortes de inteligência emocional das mulheres em competências de empatia e responsabilidade social são altamente valorizados para o trabalho, locais de trabalho e organizações de hoje. O artigo final desta série discute a crescente massa crítica econômica relativa às “habilidades tecnológicas” e as chamadas “habilidades sociais”.

Os artigos desta série foram escritos por Clara Piloto. Conheça mais sobre a autora:

Clara Piloto tem ampla experiência em treinamento e desenvolvimento de força de trabalho, andragogia, educação executiva e profissional e ensino superior. Clara é Diretora de Programas Globais e Diretora de Programas “Digital Plus” do MIT Professional Education. Ela fundou e lidera com sucesso a expansão dos programas multilingues e online do MIT e da comunidade global de lifelong learning. Clara é uma defensora da DEIB (diversidade, equidade, inclusão e pertencimento), bem como da pedagogia socialmente direcionada, da competência cultural e da equidade e igualdade de gênero. Seu trabalho se concentra na expansão do acesso à aprendizagem online por meio da eliminação do mundo físico e das barreiras linguísticas . Sua dedicação a essa missão foi recentemente reconhecida pelo prêmio “Hipatia Award in Business and Science”, do jornal espanhol El Economista, especificamente por seus esforços em reduzir a lacuna de gênero em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) para mulheres de língua espanhola em todo o mundo. Para saber mais sobre o trabalho internacional de Clara Piloto no Massachusetts Institute of Technology, entre em contato com ela pelo LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/clarapiloto/.

Para mais informações sobre o novo portfólio de cursos online em português de Clara Piloto, acesse: https://professionalprograms.mit.edu/pt-pt/. Ela vem trabalhando para expandir e compartilhar o conhecimento e a experiência do MIT nas habilidades técnicas e humanas. Essa expansão é especialmente necessária para que a revolução digital que está ocorrendo no Brasil atenda às necessidades do trabalho do futuro, da indústria 4.0 e da transformação digital global. As mulheres em todo o mundo, especialmente no Brasil, estão ficando para trás. Os empregadores não podem confiar no mercado de trabalho tradicional para preencher as lacunas digitais em suas organizações. O investimento em treinamento abrangente e cuidadosamente direcionado em tecnologias digitais dará às mulheres e aos homens com empregos em situação de risco habilidades valiosas e oferecerá aos trabalhadores fora do mercado de trabalho uma maneira prática de retornar a ele. Uma força de trabalho equilibrada e justa apoiará as organizações brasileiras e terá sucesso na era digital de hoje. Junte-se à Nação MIT para tornar o mundo um lugar melhor para todos e todas.