Sustentabilidade

10 Mitos Sobre A Sustentabilidade

mitos

Quando uma palavra cai na boca do povo e pode ser ouvida em toda parte, referindo-se a uma variedade de assuntos, há duas possibilidades. A primeira é ela ter virado um chavão, um lugar-comum destituído de significado real, que pode ser usado para qualquer coisa, da venda de sabonete, aos programas de governo. A outra possibilidade é a palavra representar um conceito que realmente se tornou o Zeitgeist  – “espírito dos tempos”, termo criado pelos filósofos alemães – da nossa era. A expressão “ser verde” se encaixa claramente na primeira categoria. Qual é o caso de sustentabilidade

Ninguém realmente sabe o que isso significa:  O sentido moderno do termo foi claramente definido pela Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desevolvimeto, da Organização das Nações Unidas, em 1987. O documento, chamado Nosso Futuro Comum, classificou o desenvolvimento sustentável “como aquele que satisfaz as encessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Ou seja, recomenda cuidar dos ecossistemas no presente para que haja recursos sufucientes para sustentar a vida humana no futuro

É um sinônimo de verde: Os dois conceitos têm pontos em comum, mas “verde” significa, sobretudo, a preferência do natural sobre o artificial. Com quase 7 bilhões de pessoas no planeta e um acréscimo de 2 bilhões previsto para 2050, dependemos da tecnologia para dar a elas um bom padrão de vida. A tecnologia não é algo necessariamente ruim.  Quando limpa, sem causar impactos destrutivos ao ambiente, pode encontrar recursos renováveis, como as células solares, as turbinas de vento e os carros elétricos. “O tempo que o planeta demora para produzir os recursos de que o homem  precisa  é muito maior do que o tempo que o homem leva para consumi-los.

Trata-se, em resumo, de preservar a natureza: Seria limitado discutir a sustentabilidade apenas do ponto de vista ambiental. As perspectivas sociais e econômicas da humanidade estão no mesmo patamar da preservação do meio ambiente. Mesmo que os moradores das grandes cidades decidam economizar água para o abastecimento seJa suficiente para todos, quase 1 bilhão de pessoas não terão acesso garantido a esse recurso – e isso não é sustentável.

É outra palavra para reciclagem: Reciclar se tornou a solução simbólica da crise ambiental e é a mensagem mais divulgada quando se fala em contribuir para a sustentabilidade, Deu certo, de muitas formas. As pessoas estão realmente preocupadas com o assunto, e a coleta seletiva de lixo se tornou a contribuição que a maioria está disposta a dar ao futuro do planeta. A complicação é que encaminhar garrafas e latas de alumínio para o reaproveitamento é apenas um item de uma enorme pauta. Energia e transporte, por exemplo, são questões com maior prioridade.

Custa muito caro: Esse é o mito dos mitos. A impressão de que ser sustentável sai caro está associado ao fato de que existe um custo inicial na implantação de tecnologias limpas. De fato, quando se tem um sistema insustentável – fábrica poluente, o transporte a diesel, lâmpadas incandesentes ou um carrão gastador na garagem -, não há como escapar de despesas na troca por tecnologias mais sustentável. Quase sempre o investimento é fartamente recompensado pela economia que se fará no futuro. Algumas vezes nem é necessário gastar com nova tecnologia, mas apenas modificar processos rotineiros.

Significa reduzir o padrão de vida: Não é verdade. Ou, pelo menos, não toda a verdade. Durante muito tempo, a sustentabilidade foi encarada como uma crítica ao alto padrão de vida dos habitantes dos países ricos. O conceito de sustentabilidade não é um clamor por uma vida menos confortável, mas, sim, uma reflexão sobre o consumo excessivo. Basicamente, é uma proposta de fazer mais com menos.

Depende de consumidores e militantes, não do governo: A escolha do consumidor e dos movimentos organizados é necessária e produtiva, mas não é suficiente para promover grandes mudanças. Só o governo tem o poder e os recursos para fazer diferença real. Pode, por exemplo, usar a tributação para coibir a emissão de gases do efeito estufa. Também pode criar padrões para veículos mais eficientes no uso de combustíveis. Um ponto controverso diz respeito a deixar ou não a questão de sustentabilidade a cargo da livre iniciativa. Pode-se esperar que os preços subam naturalmente à medida que os recursos naturais  fiquem escassos, reduzindo-se assim o consumo. O problema, no entender de Anthony Cortese, é que o preço da maioria dos produtos não inclui o verdadeiro valor dos serviços que o planeta nos presta com seu ecossistema. Caberia ao governo informar à sociedade o valor real dos impactos externos de cada item. Dessa forma, a indústria se veria obrigada a procurar soluções mais eficientes e responsiveis para não ficar fora do mercado.

Novas tecnologias são a solução: Nem sempre criar novas tecnologias é a solução para a dilapidação dos recursos naturais. Às vezes, reiventar uma metodologia ou um sistema já existente atende perfeitamente aos desafios da sustentabilidade.

O cerne do problema é a super população: Não é exatamente um mito, mas uma falsa questão. Todo o problema ambiental é, em última análise, populacional. Se a população total do planeta fosse reduzida a 190 milhões de pessoas – um Brasil, portanto -, teríamos espaço de sobra para depositar nosso lixo bem longe de casa. Como já está bem demonstrado, a melhor forma de conter o aumento da população é promover a educação e a melhoria das condições de vida. Como a vida melhorou em boa parte do mundo, a ONU já foi forçada a rever suas projeções de crecimento populacional: o número de pessoas na Terra deve se estabilizar em torno de 9 bilhões em 2050. É muita gente, visto que hoje, com 6,8 bilhões de habitantes, estamos gastando recursos naturais acima da capacidade de reposição do planeta. Mas há como contornar o problema. A China, com 1,3 bilhões de habitantes, é o maior produtor de gases de efeito estufa no mundo. Mas as emissões per capita correspondem a apenas 30% das do Estados Unidos, que têm 310 milhões de habitantes.

É fácil viver de forma sustentável: Nem sempre uma attitude sustentável é suficiente para colaborar com o planeta. Não que seja inútil, mas o conceito de sustentabilidade está ligado a atitudes que consideram resultados de longo prazo. […] Antes de desenvolver uma prática que aparenta ser a solução de todos os problemas, é preciso olhar para todos os lados e ter certeza de que ela não causará outros tipos de impacto. Um exemplo: a derrubada de uma floresta para plantar cana para a produção de etanol. O uso do combustível alternativo seria benéfico no que diz respeito à emissão de gases do efeito estufa. Mas a derrubada da mata, por sua vez, encheria a atmosfera com mais dióxido de carbono

MELO, Carolina. Dez mitos sobre sustentabilidade. VEJA Sustentabilidade.   Dezembro, p. 42-43, 2010